sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A morte é uma piada

A morte é uma piada
Marta Medeiros - Zero Hora de 21.06.06 - Pg. 3


Assisti a algumas imagens do velório do Bussunda, quando os colegas do
Casseta & Planeta deram seus depoimentos. Parecia que a qualquer instante
iria estourar uma piada. Estava tudo sério demais, faltava a esculhambação,
a zombaria, a desestruturação da cena. Mas nada acontecia ali de risível,
era só dor e perplexidade, que é mesmo o que a morte causa em todos os que
ficam. A verdade é que não havia nada a acrescentar no roteiro: a morte, por
si só, é uma piada pronta. Morrer é ridículo.
Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário,
tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório,
colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails
que você ainda não viu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você
prometeu dar à tardinha para um cliente?
Não sei de onde tiraram esta idéia: morrer. A troco? Você passou mais de 10
anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não
serviram pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou
muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou
madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do
que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão
escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em
frente. De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway,
numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do
seu tênis. Qual é?
Morrer é um chiste. Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de
ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de
ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas
penduradas no cabide, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas
contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas
gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. Logo
você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu.
Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha
por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez
não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços
por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num
sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo
jeito. Isso é para ser levado a sério?
Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno por ser bem-vindo. Já
não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também
já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de
descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se
faz.
Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é
um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que
esta não tem graça.

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